Baixo preço por consultas leva a abandono de operadoras. Pior para usuário Por: Priscila Rangel O descredenciamento de médicos dos planos de saúde tem aumentado consideravelmente nos últimos anos. O motivo principal é o baixo valor pago pelas operadoras. No DF, 50% dos médicos não aceitam o pagamento por meio de convênios e, em especialidades como psiquiatria, pediatria e endocrinologia, pode ser quase impossível encontrar profissionais que atendam pelo plano de saúde. A categoria médica reivindica um reajuste mínimo de 200% nos honorários para continuar a atuar em convênios. De acordo com o presidente do Sindicato dos Médicos do DF (Sindmédico), Gutemberg Fialho, há convênios que pagam apenas R$ 25 por consulta. “Não compensa para o médico atender por esse valor. Se descontar os impostos chega a R$ 15 e se considerarmos que o paciente tem direito a um retorno, a consulta sai por R$ 7,50”, comenta. Para Gutemberg Fialho, a precarização dos honorários só é boa para os planos de saúde, que conseguem, assim, diminuir os custos, mas médicos e pacientes são prejudicados. “Assim, o médico tem duas opções: ou deixa de atender pelo convênio ou passa a administrar o tempo. Essa situação não satisfaz ao médico financeiramente e nem ao paciente pela rapidez da consulta.” O médico Arnoldo Veloso, 81 anos, tem uma clínica de medicina ortomolecular e nutrição na Asa Sul. Ele atende em parceria com a nutricionista Bárbara Ernest Dias, 25, mas a clínica não aceita convênio. Uma consulta custa, em média, R$ 250. “Para aceitarmos convênio teríamos que atender em massa. E optar pela quantidade em detrimento da qualidade, sendo que nossas consultas duram, no mínimo, uma hora”, diz ela. “Os planos pagam mal e as consultas precisam ser muito rápidas”, comenta o médico. Eles querem R$ 200 O caos na saúde pública do Distrito Federal continua a estimular a entrada de usuários no sistema de saúde suplementar ? os planos de saúde. Entretanto, segundo o presidente do Sindmédico-DF, várias operadoras aceitam novos pacientes, mesmo sem possuir rede credenciada capaz de atendê-los. “Várias não possuem médicos suficientes para atender aos usuários”, ataca. O movimento de descredenciamento médico dos planos de saúde, segundo Gutemberg Fialho, está acontecendo, já há algum tempo, de forma espontânea. “Não é nada organizado. Mas a coisa está andando para esse lado. Com certeza, 50% dos médicos do DF não estão credenciados a planos de saúde. Precisamos de reajuste mínimo de 200% para chegarmos a patamar aceitável.” O médico coloproctologista Luiz Alberto Mendonça de Freitas, 51 anos, atua na área há 27 anos e acredita que a remuneração paga pelos planos está muito defasada. Uma consulta particular em sua clínica custa R$ 250, enquanto o convênio paga apenas R$ 45 por ela. COBRANÇA “O valor pago é baixíssimo. Eles aumentam todo ano a cobrança dos pacientes e não repassam aos médicos. Muitas vezes ficamos no prejuízo”, lamenta. Ele garante que, apesar dos honorários baixos dos convênios, faz questão de atender bem a todos os pacientes, sem distinção, e mantém uma agenda única de pacientes, independentemente de serem particulares ou de convênios. “Acredito que os planos de saúde deveriam pagar, no mínimo, R$ 200 pela consulta”, diz. Para discutir a interferência dos planos de saúde na atuação médica, os honorários defasados, restrições de atendimento e descredenciamento unilateral, entre outros temas, será realizado o XII Encontro Nacional das Entidades Médicas (Enem), de amanhã a sexta-feira, em Brasília. O evento é resultado dos esforços de três entidades, o Conselho Federal de Medicina (CFM), a Associação Médica Brasileira (AMB) e a Federação Nacional dos Médicos (Fenam). Até o fim do encontro, os cerca de 500 participantes ? representantes da classe médica ? vão elaborar um documento, intitulado Carta de Brasília os médicos, sociedade em geral e candidatos a cargos majoritários. ANS defende discussão A Agência Nacional de Saúde Suplementar (ANS), por meio de nota, informou sobre a criação de dois grupos de trabalho, um para discutir os honorários médicos e outro para analisar a remuneração de hospitais. “A ANS entende que a realização simultânea desses dois grupos de trabalho é favorável ao debate de condições que tragam maior sustentabilidade para a saúde suplementar no Brasil”, diz a nota. No documento, a Agência demonstra não estar de acordo com qualquer tipo de incentivo que prejudique o beneficiário com o recebimento de menos do que o necessário para o seu diagnóstico e tratamento. O grupo voltado para a questão dos médicos não vai entrar no mérito do valor dos procedimentos, que devem ser acordados por médicos e contratantes. A ANS orienta, entretanto, que a remuneração aconteça de acordo com a complexidade técnica, tempo de execução, atenção requerida e grau de treinamento do profissional. Segundo a Agência, o intuito da iniciativa é discutir critérios para reajustar os valores dos serviços prestados, que devem aparecer nos contratos firmados entre as operadoras e os médicos. REAJUSTE Procurada pela reportagem do Jornal de Brasília para comentar a opinião dos convênios sobre os valores pagos aos médicos, a Federação Nacional de Saúde Suplementar (fena saúde) não quis se pronunciar. O órgão, que representa operadoras de planos de saúde suplementar e reúne 17 grupos empresariais responsáveis por 18 milhões de beneficiários, 33% do total, afirmou participar dos debates sobre a questão com a ANS. Sobre a iniciativa da ANS, o presidente do Sindmédico-DF ressaltou que a Agência precisa dar mais atenção ao prestador de serviços médicos. “A ANS tem se esquecido do médico. Ela considerado só o lado das operadoras e pacientes”, disse Gutemberg Fialho. “Os debates da ANS sobre os reajustes precisam de interlocução médica significativa. Caso contrário, a discussão não vai resultar em bom reajuste nos preço das consultas”, concluiu Fonte: Jornal de Brasília
Médicos pedem descredenciamento dos planos de saúde
27/07/2010 | 03:00