Evento discutiu o uso da inteligência artificial, a solicitação criteriosa de exames e a importância da autonomia médica e do cuidado centrado no paciente
O avanço da Inteligência Artificial (IA), o uso crescente de medicamentos para emagrecimento e o excesso de exames diagnósticos estão transformando a prática médica e impondo novos desafios à tomada de decisões clínicas. Esses temas estiveram no centro dos debates do V Fórum Virtual de Clínica Médica do Conselho Federal de Medicina (CFM), realizado nesta sexta-feira (30), com o tema “Decisão Clínica: Entre a Tecnologia, o Excesso e o Cuidado Real”.
Organizado pela Câmara Técnica de Clínica Médica, coordenada pelo 2º tesoureiro do CFM, Carlos Magno Dalapicola, o encontro reuniu conselheiros federais e especialistas para discutir como conciliar os avanços tecnológicos com a autonomia profissional, o raciocínio clínico e a assistência individualizada aos pacientes.
Durante a abertura, a 2ª vice-presidente do CFM, Rosylane Rocha, destacou os desafios relacionados ao excesso de informações, à pressão por respostas imediatas e à utilização indiscriminada de recursos tecnológicos. “Quem não souber fazer o raciocínio clínico não vai saber quais exames solicitar, não vai saber interpretá-los, e a inteligência artificial não vai ajudar nessa deficiência”, alertou.
Para a conselheira, a tecnologia deve fortalecer, e não substituir, as competências fundamentais da profissão. “A verdadeira decisão clínica acontece quando usamos a tecnologia como uma bússola, mas mantemos o paciente sempre como nosso norte”, afirmou. Rosylane também ressaltou a importância da clínica médica, que reúne mais de 59 mil especialistas no Brasil, e defendeu a valorização da anamnese, do exame físico e da escuta atenta.
Dalapicola reforçou a centralidade do raciocínio clínico na assistência. “A decisão clínica é o coração da nossa especialidade. É o raciocínio clínico direcionado e aguçado que fará o diagnóstico diferencial, indicará os exames pertinentes e proporá a conduta apropriada”, disse. Segundo ele, cabe ao clínico avaliar o paciente de forma integral, relacionando sintomas, histórico de saúde e condições de vida antes de definir a necessidade de encaminhamento a outros especialistas.
Inteligência artificial e autonomia médica – O 3º vice-presidente do CFM, Jeancarlo Cavalcante, relator da Resolução CFM nº 2.454/2026, que regulamenta o uso da IA na medicina, destacou que a tecnologia deve contribuir para a precisão e a eficiência da assistência, sem substituir o julgamento profissional.
De acordo com o conselheiro, a regulamentação busca proteger os direitos dos pacientes, preservar a autonomia médica e estimular a inovação responsável, com transparência e governança. Cavalcante também alertou para os riscos da inteligência artificial generativa, como a produção de informações incorretas, as chamadas alucinações algorítmicas, e o uso inadequado dessas ferramentas por profissionais e pacientes.
Excesso de exames e segurança do paciente – A conselheira federal Cibele Alves abordou os riscos da solicitação excessiva de exames de imagem. “Estamos vendo mais do que nunca, mas estamos curando mais ou apenas nos preocupando mais?”, questionou, ao apresentar o dado de que aproximadamente 3,6 bilhões de exames de imagem foram realizados globalmente em uma única década.
“A tecnologia da imaginologia avançou exponencialmente. O desafio clínico moderno não é mais como ver o interior do paciente, mas quando é seguro olhar”, destacou. Segundo a conselheira, cada exame pode envolver custos biológicos, financeiros ou psicológicos, o que exige uma avaliação criteriosa de sua necessidade.
Imagens – A última mesa redonda debateu o tema “Exames complementares: quando ajudam e quando atrapalham?”. O primeiro palestrante foi o professor aposentado da faculdade de medicina da Universidade Federal do Espírito Santo e hematologista Thales Gouveia, que questionou a validade de alguns parâmetros colocados como ideais por alguns influencers.
Após analisar valores de referência de exames de ferritina, B12 e PCR ultra sensível, o palestrante alertou que cada resultado deve ser analisado de acordo com a história clínica do paciente. “Os resultados não são válidos para todo mundo. É preciso analisar a história clínica do paciente”, alertou.
O último palestrante da mesa foi membro da Câmara Técnica de Patologia e Patologia Clínica/Medicina Laboratorial do CFM Wilson Shcolnik, que apresentou “O Painel da Medicina Diagnóstica no Brasil de 2025”. “Temos hoje radiologistas em um bom número, mas faltam patologistas. Também há uma concentração de equipamentos e de profissionais no Sul e Sudeste”, afirmou.
Esta mesa foi moderada pelo paliativista e membro da Câmara Técnica de Clínica Médica do CFM Patrick Áureo Lacerda de Almeida Pinto.
Ao final do Fórum, Carlos Magno agradeceu a todos “que vieram aqui para ensinar e difundir conhecimentos” e adiantou que o CFM está disposto a contribuir com propostas que diminuam o desperdício e a prescrição desnecessária de exames complementares.